SOBRE SER MULHER E TER UM CORPO GORDO
VidaA primeira vez em que um homem pegou na minha bunda, eu tinha 11 anos de idade e estava em um show com a minha mãe e minha irmã. Falei com a minha mãe que um cara tinha passado a mão na minha bunda e ela falou que isso, infelizmente, era normal. Que eu deveria me afastar, mas que também poderia dar uma cotovelada ou um pisão no pé. Foi assim, que comecei a aprender que os homens fariam o que quisessem com nossos corpos e não poderíamos reagir à altura.
Durante muito tempo, aceitei o assédio como normal. Até que me tornei furiosa e deixei de aceitar. Passei a reagir. E reagir de uma forma agressiva. Até que, aos 21, um cara passou a mão na minha bunda em show. Na verdade, ele quase levou a minha bunda pra casa… E eu puxei ele pelo colarinho, olhei no fundo dos olhos dele e perguntei o que ele achava que estava fazendo. Logo os amigos dele entraram no meio e virou uma grande intimidação, com ameaças à minha vida. Ali, eu entendi que era impotente. Que não poderia reagir, sem correr mais riscos de agressão.
Uma vez, durante o intercâmbio, estava bebendo em uma ladeira muito estreita com amigos, na porta de um bar lotado. Um carro veio subindo e espremendo a galera nos muros. Foram muitos gritos de protesto e no meio disso, alguém chutou o carro. O motorista desceu, veio pra cima de mim, me empurrando, chamando de puta e ameaçando me dar um murro. Minha turma se dispersou e um amigo francês entrou no meio e falou que tinha sido ele a dar o chute – e realmente tinha sido, ele não tentou ser cavalheiro. O motorista simplesmente perguntou o porquê de ele ter feito isso, deu um empurrão nele e voltou para o carro. Ali, ainda tremendo de tanto medo e susto e tudo mais entendi que, se fosse eu, tomaria uma surra, mas como era um homem, foi só um empurrão.
Fiz intercâmbio em uma época em que as brasileiras eram chamadas de “putas” naquele país. Em que disfarçávamos o nosso sotaque, para não sermos assediadas, agredidas, desrespeitadas. Mesmo assim, passei por situações que não gosto nem de lembrar. Era outros tempos, diziam. Eram mesmo. Mas temos visto uma regressão tremenda no que diz respeito aos direitos das mulheres e conteúdos difamatórios assustadores.
Há 10 anos, ocupo um corpo gordo. Durante boa parte desses anos, tentei lutar contra esse corpo. Mas, cansei. E quando cansei, percebi que, no fundo, eu não estava querendo me livrar das gorduras que tanto me protegem dessa coisa que é ser mulher e nunca estar protegida. Com essa capa de gordura, eu sinto como se tivesse uma capa de proteção. E só fui enxergar isso com clareza, quando me vi aos prantos quando conversava com uma amiga numa mesa de bar e ela dizia sobre o maior ganho que ela via na cirurgia bariátrica: ser vista e desejada. Lá estava eu, aos prantos – e bêbada – dizendo que meu maior medo era ser desejável. Eu, que já fui super fitness e vaidosa pelo meu corpo, passei a ter um medo profundo de ser vista, de ser desejável. E como eu cheguei nisso?
Ainda durante o tal intercâmbio, sofri um estupro. Talvez não exista maior sensação de impotência do que essa. Ter o corpo invadido, é a prova de que você não vale nada, de que você não serve para nada além de ser usada e descartada em um beco qualquer. Você se torna um lixo, algo totalmente sem valor. Um poço de medo também. Eu me tornei uma pessoa vazia, um corpo sem alma.
Eu precisava me proteger. Me isolar do mundo, foi o primeiro passo. Ali, abandonei as festas, os amigos, usei a desculpa de que precisava guardar dinheiro para o meu mochilão e ninguém questionou. Trabalhava e estudava, assistia TV e comia. Desenvolvi compulsão alimentar e engordei 28kg em 2 meses. Nenhuma roupa me servia e comprei um conjunto de moletom, parei de me arrumar e passava a maior parte do tempo sozinha. Quando voltei ao Brasil, eu tinha fobia social, uma depressão profunda, mas sempre disfarcei muito bem e assim a vida seguiu.
Após me formar e passar um período desempregada, escondida, voltei a morar na cidade que eu gosto, fui trabalhar no mercado da beleza e senti vontade de voltar à vida. Me dediquei a um esporte, fiz dieta e horas infinitas de academia, conquistei um corpo lindo e voltei a ser convidada, admirada, a tentar ter uma vida normal. Até passar a ser assediada no trabalho, por um pastor. Um dia, ele estava “mais corajoso” e eu reagi à altura: dei-lhe uma bela joelhada e falei que usaria as imagens das câmeras de segurança para denunciá-lo à esposa e à nossa chefe. Mas não tive coragem. Ele se afastou e eu segui com a vida.
O tempo passou, eu voltei a uma vida “normal”. Agitada, com amigos, trabalho, esportes, relacionamentos. Parecia que tudo havia ficado pra trás, apesar da minha dificuldade para me abrir em relacionamentos. Eu tentava levar uma vida “normal”, mas no fundo, sabia que eu nunca mais seria uma garota normal. Eu seguia em frente, apesar de tudo, confiando em dias melhores, conquistando as coisas que queria e isso era bom.
Até que veio o segundo estupro. E desse, eu não me recuperei. Eu tentei seguir em frente, fingir que nada tinha acontecido. Mas não consegui me manter assim por muito tempo. Aquilo estava me consumindo. E lá fui eu, ganhando peso, mudando a vida, abandonando meus sonhos. Me afastei de tudo e todos que amava, me isolei de novo e entrei em um buraco profundo. Foram quase 40kg, o que criou um corpo impossível de não ser visto, mas também, quase impossível de ser desejado.
Eu morava em Brasília e resolvi ir a um show que eu gostava. Fui sozinha. Estava dançando e um cara encostou em mim. Entrei em pânico e fui embora na hora. Nessa época, eu estava fazendo dieta e tinha emagrecido 8kg. Entrei em um ciclo de compulsão alimentar e engordei 9kg. E assim tem sido. Este ano, emagreci 7kg com muito esforço e mudanças na rotina. Ao primeiro elogio num balcão de bar, disparei a comer doces e já engordei 3,5kg.
Minhas amigas falam para eu usar uma canetinha emagrecedora. Minha médica vem tentando me convencer há 18 meses. Eu sei que elas dariam resultado – como na maior parte dos casos – mas sei também que eles não seriam duradouros, enquanto eu não resolver esse medo que me corrói por dentro. São anos de terapia. De vários tipos e correntes. Mas ainda não consegui superar isso. Ter entendimento, já é um belo passo, segundo minha terapeuta. Mas como se sentir segura em um país em que uma média de 4 mulheres são assassinadas por dia? Em uma sociedade em que as mulheres ainda são tratadas como inferiores.
Hoje, estava conversando com uma amiga que está usando uma das canetinhas, por recomendação médica, fazendo o tratamento certinho e está muito feliz. Ela queria me indicar a médica dela porque sabe que o corpo gordo é uma grande questão na minha vida e queria me ajudar. E muitas vezes, a gente tem a melhor das intenções quando fala sobre corpo com outras mulheres, quando dá “dicas” para serem mais magras ou mais saudáveis ou mais felizes. Mas, no fundo, a gente não sabe o que cada uma está passando, quais são as suas dores, quais são os reais motivos para que elas ostentem esse tal “corpo fora do padrão”. Às vezes, nem elas sabem! Assim como eu, que demorei muitos anos para entender os motivos para eu não conseguir emagrecer ou me manter no processo de emagrecimento.
Obesidade é uma doença, reconhecida pela OMS. Quer algumas pessoas aceitem ou não. Eu tenho acompanhamento há anos, cuido dos meus hormônios, das vitaminas e minerais, de tudo o que surge em relação à saúde. Faz poucos meses que minha saúde entrou nos eixos e meus marcadores passaram a indicar uma ótima condição de saúde. Mas o excesso de peso está aqui, meus joelhos sofrem com isso (e eu sofro também). Só que ainda não consigo sustentar a ideia de ter um corpo menos gordo. Infelizmente, ainda sinto que a gordura me protege e ainda há uma longa caminhada até o tal “corpo saudável”.
Vim aqui escrever, para pedir que se policiem ao falar sobre o corpo do outro, que tentem não entrar nesses temas, quando não forem chamados à conversa. Porque existem camadas demais a serem tratadas, quando a gente fala de um corpo gordo. Ninguém engorda porque deseja isso, conscientemente. E eu acredito que ninguém vai conseguir manter um corpo magro, se não curar o que lhe levou ao corpo gordo. Acho que era isso.
